Estudo da USP mostra que segurança e biodiversidade influenciam mais a saúde mental do que a quantidade de árvores

Estudo da USP revela que conexão com a natureza varia conforme gênero, local de moradia e qualidade dos espaços verdes; em áreas rurais, rios e lagos exercem papel decisivo no bem-estar.

A presença de áreas verdes, por si só, não garante benefícios à saúde mental. Essa é uma das principais conclusões de uma pesquisa desenvolvida no Instituto de Biociências da USP, que analisou como fatores ambientais e sociais influenciam a conexão das pessoas com a natureza.

O estudo, conduzido pela bióloga Karla Vieira Morato, reuniu mais de 5 mil respostas e concluiu que segurança, acesso e biodiversidade exercem papel tão importante quanto a quantidade de vegetação disponível. Além disso, os resultados mostram que homens e mulheres vivenciam essa relação de maneiras distintas e que moradores de áreas rurais nem sempre apresentam melhor saúde mental do que aqueles que vivem nos centros urbanos.

A pesquisa teve origem na própria trajetória da autora. Nascida em São Paulo e criada na zona rural de Ibirataia, na Bahia, Morato decidiu investigar cientificamente as diferenças percebidas entre a vida no campo e na metrópole durante seu doutorado.

Qualidade dos espaços verdes importa mais do que quantidade

A investigação foi estruturada em três etapas complementares. Primeiro, a pesquisadora realizou uma metanálise de estudos internacionais sobre natureza e saúde mental. Em seguida, aplicou questionários para avaliar a relação entre conexão com áreas verdes, bem-estar psicológico e local de residência.

A revisão identificou dois fatores centrais para a promoção da saúde mental: acesso e disponibilidade de áreas naturais. No entanto, a pesquisadora destaca que o benefício depende da possibilidade real de uso desses espaços.

Outro aspecto relevante foi a qualidade ecológica. Segundo o levantamento, ambientes com maior biodiversidade fortalecem o sentimento de conexão com a natureza e ampliam os efeitos positivos sobre o bem-estar.

Os participantes também responderam ao Questionário de Saúde Geral de Goldberg, ferramenta amplamente utilizada para identificar sinais de ansiedade, estresse e outros transtornos não psicóticos. A metodologia permitiu relacionar indicadores psicológicos com as condições ambientais percebidas pelos entrevistados.

Desigualdade urbana limita o acesso ao verde

Os resultados apontam que a população brasileira demanda principalmente mais segurança e melhores condições de acesso às áreas verdes. Conforme a pesquisa, muitos espaços urbanos apresentam baixa manutenção, pouca diversidade ecológica e sensação de insegurança, fatores que reduzem seu potencial restaurador.

A análise reforça ainda um problema estrutural do país. Dados do IBGE mostram que apenas 13,5% dos brasileiros vivem em ruas com três ou quatro árvores, evidenciando a distribuição desigual da infraestrutura verde.

Para a pesquisadora, a insegurança associada à desigualdade social e à violência urbana dificulta o uso desses espaços e pode aumentar sentimentos de estresse e ansiedade.

Homens e mulheres se conectam à natureza de formas diferentes

O estudo também identificou diferenças de gênero na forma de interação com o ambiente natural. Entre as mulheres, a conexão com a natureza está mais associada à frequência de contato com áreas verdes. Já entre os homens, a diversidade dos ambientes naturais gera maior impacto do que a regularidade das visitas.

Apesar dessa diferença, a sensação de segurança apareceu como fator determinante para ambos os grupos. Por isso, a pesquisa defende políticas públicas que combinem ampliação de áreas verdes, proteção dos usuários e enriquecimento da biodiversidade.

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Áreas azuis ganham destaque no campo

Uma das descobertas mais surpreendentes surgiu na comparação entre moradores urbanos e rurais. Ao contrário do esperado, viver cercado por vegetação não resultou automaticamente em melhores indicadores de saúde mental.

Segundo Morato, muitos moradores do campo associam as áreas verdes ao trabalho cotidiano. Dessa forma, o descanso e a sensação de refúgio aparecem mais vinculados às chamadas áreas azuis, como rios, lagos e represas.

Além disso, a população rural apontou a necessidade de mais infraestrutura de lazer e convivência. Sem esses investimentos, os espaços naturais tendem a ser percebidos apenas como ambientes produtivos, reduzindo seu potencial restaurador.

Por fim, a autora defende políticas públicas integradas capazes de enfrentar simultaneamente os desafios da saúde mental e da crise ambiental. Os resultados também foram publicados recentemente na revista científica Journal of Environmental Psychology, reforçando a relevância do tema para o planejamento das cidades e dos espaços rurais.

Fonte: Jornal da USP

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