Como a liberalização de armas fortaleceu o crime ambiental no Brasil

Flexibilização armamentista entre 2019 e 2022 ampliou o poder de fogo do crime ambiental no Brasil e elevou a violência contra fiscais e comunidades na Amazônia.

Entre 2019 e 2022, o Brasil flexibilizou o controle de armas sob o discurso da defesa individual. Como consequência, grupos ligados ao desmatamento, garimpo ilegal e grilagem se armaram com fuzis e pistolas modernas.

Além disso, a agenda armamentista passou a se sobrepor à ambiental. No território, isso significou áreas sob vigilância armada, confrontos mais violentos e avanço de atividades ilegais na Amazônia.

Agentes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade relatam mudança no perfil dos infratores.

Antes, apreendiam armas simples. A partir de 2019, passaram a enfrentar fuzis 5.56 e 7.62. Na Terra Indígena Yanomami, operações registraram ataques armados, helicópteros alvejados e emboscadas. Por isso, fiscais precisaram rever estratégias e atuar com apoio policial. Enquanto isso, comunidades indígenas e tradicionais enfrentaram mais ameaças e intimidação constante.

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CACs e a formação de agromilícias

A categoria de Caçadores, Atiradores e Colecionadores virou principal porta de acesso às armas. A regulamentação, sob o Exército e depois com maior participação da Polícia Federal, ampliou limites de armas e munições.

Segundo investigações, registros de CAC serviram como fachada para milícias rurais. “Laranjas” compraram armas que abasteceram grilagem, extração ilegal de madeira e garimpo.

Além disso, a autorização para porte em toda a propriedade rural permitiu patrulhamento armado em fazendas do tamanho de municípios.

A multiplicação de clubes de tiro em áreas amazônicas reforçou a circulação de armamentos.
Esses espaços funcionaram como locais de treinamento e manutenção de arsenais. Em alguns casos, investigações apontaram desvios para proteção armada de áreas griladas.

A caça recreativa segue proibida no Brasil. No entanto, o manejo do javali-europeu abriu uma exceção.

Entre 2019 e 2021, registros de caçadores cresceram fortemente. Com isso, aumentaram compras de armas semiautomáticas e grandes volumes de munição.
Ambientalistas afirmam que o controle da espécie não avançou. Em contrapartida, grupos armados entraram em florestas para caçar animais silvestres e apoiar invasões ilegais.

Crime ambiental no Brasil é difícil de rastrear

O crime ambiental opera em rede. A grilagem viabiliza desmatamento, que sustenta pecuária ilegal e especulação. O garimpo financia a ocupação e compra de armas.

Ao mesmo tempo, normas mais frouxas dificultaram o rastreamento de armas e munições. Assim, ataques a fiscais e lideranças indígenas raramente têm autoria identificada.

Em 2023, o Decreto nº 11.615 restringiu armas e munições e devolveu ao Ibama o controle do manejo do javali. Ainda assim, o estoque acumulado permanece em circulação. Agora, o desafio envolve reconstruir controles e enfrentar um crime ambiental mais armado, organizado e violento.

Fonte: Revista Amazônia

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