Artigo que sustentava segurança do herbicida foi retirado após 25 anos por conflito de interesses; especialista cobra revisão regulatória e alerta para exposição crônica no Brasil.
A revista científica Regulatory Toxicology and Pharmacology despublicou um artigo do ano 2000 que defendia a segurança do glifosato, herbicida mais usado no mundo. A decisão ocorreu após revelações de conflitos de interesse.
Cientistas ligados à Monsanto, empresa que patenteou o produto, participaram da elaboração do estudo sem transparência. Para a pesquisadora Larissa Bombardi, autora do livro Agrotóxicos e Colonialismo Químico, o episódio revela um problema estrutural. “Não é normal que isso seja publicado. Não é normal, mas é corriqueiro”, afirma.
Segundo ela, o artigo funcionou como peça estratégica para consolidar a narrativa de baixo risco do herbicida. “Era um artigo de revisão que compilava estudos e ajudava a construir a ideia de consenso científico.”
Larissa afirma que a participação oculta da indústria em pesquisas acadêmicas não representa um caso isolado. Segundo explicou, esse tipo de prática recebe o nome de ghostwriter. Nesse modelo, empresas ajudam a produzir estudos científicos sem aparecer como autoras.
“Os funcionários da Monsanto estruturaram o artigo e forneceram os dados usados na pesquisa”, diz. Além disso, segundo a pesquisadora, o modelo regulatório amplia o problema. “Quem fornece os relatórios que dizem que o produto não é cancerígeno é a própria indústria. É como se a raposa cuidasse do galinheiro.”
Consequentemente, agências regulatórias utilizam esses estudos para embasar decisões sobre registro e uso de substâncias químicas.
Especialista defende banimento do glifosato e revisão regulatória
Após a retirada do estudo, Bombardi defende uma revisão das políticas públicas. “Temos que exigir o banimento do glifosato”, afirma.
Embora o herbicida não esteja proibido na União Europeia, a região impôs restrições severas e enfrenta disputas judiciais sobre sua autorização. Segundo a pesquisadora, o caso demonstra a necessidade de revisar decisões regulatórias baseadas em estudos comprometidos. “Quando algo estruturante no marco regulatório se desmancha, é hora de rever aquilo que foi regulado.ocupa trabalhadores rurais
Bombardi alerta que trabalhadores rurais, povos indígenas e comunidades próximas a áreas agrícolas enfrentam exposição constante aos pesticidas. Ela destaca que a pulverização aérea e o uso de drones ampliam os riscos.
“A população rural no Brasil está cronicamente exposta a substâncias cancerígenas ou que provocam desregulação hormonal.” Além disso, estudos indicam relação entre regiões com alto uso de agrotóxicos e maior incidência de câncer e malformações congênitas.
Segundo a pesquisadora, a exposição não ocorre apenas pela alimentação. “Os trabalhadores recebem essas substâncias na pele e respiram esses produtos.”
Outro ponto crítico envolve a presença simultânea de diferentes agrotóxicos na alimentação. Bombardi explica que pesquisas regulatórias analisam substâncias isoladas. Contudo, na prática, a população enfrenta um “coquetel químico”.
“Não sabemos o que acontece quando mais de um agrotóxico aparece no mesmo alimento ou na água”, afirma.
Um estudo do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor encontrou resíduos de glifosato em metade de 70 produtos ultraprocessados analisados. Segundo a especialista, o resultado desmonta a ideia de que o problema se limita a frutas e verduras. “Essas substâncias também estão presentes em alimentos industrializados que fazem parte da nossa dieta cotidiana.”
Fonte: icl noticias





